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No dia 5 de setembro será inaugurada uma escola pública em Manaus com o nome de minha mãe. Este é o texto que escrevi, e qual será lido no dia da inauguração. É um texto um tanto formal cujo estilo não estou muito acostumado, mas é uma cerimônia solene com autoridades locais e etc.. e etc...
Sobre minha mãe.
Apesar de soar um tanto estranho, devo dizer que só posso falar de minha mãe do meu ponto de vista. Não sei exatamente como os outros a viam. Para começar, minha era uma pioneira em tudo. Minha mãe fez algo que só agora entendo como deve ter sido difícil. Foi uma das primeiras mulheres a fazer longas viagens para levar a educação para lugares distantes do Amazonas. Ela fez isso numa época em que as mulheres no Amazonas, mesmo em Manaus, por definição, só deveriam se preocupar em casar, ter filhos e ficar em casa. O sonho de dona "Céci", que é como algumas pessoas a chamavam, era levar a educação às comunidades mais distantes do Amazonas. A maioria das pessoas acha que educação se resume a aprender português, matemática, física, química e etc... . Mas minha mãe tinha uma noção exata de que a educação vai muito além disso. E por isso ela não media esforços para fazer com que o maior número possível de pessoas tivesse acesso a esta palavra que as pessoas falam tanto, mas que poucas entendem o real significado, a educação. Dona Cecília entendia que levar a educação às pessoas é uma forma de ampliar os horizontes, de melhorar a vida, de tornar a convivência entre os seres humanos uma experiência rica. Voltando ao meu ponto de vista, lá em casa, havia poucos brinquedos. No lugar deles havia livros, muitos. Perdi a conta de quantos livros rasguei antes de aprender a ler. Aliás, o que deve ter sido uma grande alegria para ela, aprendi a ler sozinho aos quatro anos de idade. Havia em casa uma estante que ia até o teto. Nunca houve nenhuma proibição sobre o que podia ser lido e o que não podia. O resultado disso foi que antes de chegar aos sete anos de idade li uma infinidade de livros. Os livros eram os meus brinquedos. Monteiro Lobato, Eça de Queiroz, Guimarães Rosa, Piaget, Vitor Hugo, e tantos outros. Tornei-me um leitor não porque minha mãe me dizia que ler era uma coisa boa, mas sim, porque ela fazia isso parecer algo natural. Vamos ver o que mais, huuuummmm. Dona Cecília era uma educadora "linha dura" e mesmo assim as alunos a adoravam. Era professora de português, que assim como matemática, não é uma matéria muito popular. Mas de alguma forma ela conseguia fazer os alunos gostarem. A prova disso é que às vezes, passeando pelo centro, encontrávamos ex-alunos que a reconheciam e diziam como ela tinha mudado a vida deles para sempre. Eu era muito jovem e não entendia de que forma um professor poderia mudar a vida de alguém para sempre e para melhor. Mas hoje, felizmente, eu entendo isso perfeitamente. O que mais? Bem, minha mãe me ensinou o valor da disciplina nos estudos. Algo que só vim a dar valor muito tempo depois, quando me perguntaram como conseguia ler livros tão volumosos e complicados em tão pouco tempo. Uma vez ela me disse: “Estudar quando se tem vontade é fácil, todo mundo é capaz disso. O difícil é estudar quando não se quer, quando estamos cansados, quando não se tem vontade.” Essa frase me fez entender que o processo de aprendizado tem seus momentos difíceis. Nem tudo é lúdico. A educação também tem seus momentos de aridez, mas isso não é uma coisa a ser evitada, mas sim algo que deve ser encarado como parte integrante do processo de educação. Por fim, minha mãe era uma pessoa extremamente generosa e amazônida até a último fio de cabelo. Elegante, discreta, vigorosa, mulher com alma de sussuarana. Uma alma fundamentalmente livre. E essas são as coisas que sei, que lembro e que vivi, com minha querida mãe, que vocês conheceram como, Cecília.
Do seu filho, Daniel.
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