| Quem é quem ( o tiro no ouvido ) |
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| Written by Y.N. Daniel |
| Monday, 09 November 2009 17:42 |
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Da série: crônicas do impossível.
Nova, estou de padaria nova. Não, a padaria não é miha, é que mudei de bairro. É um bairro considerado chique (no quê ainda não me é claro...).
Lá para as oito da noite, quando chego do trabalho, quase todos os dias vou á padaria. É um evento. E desde quando comprar pão é evento? Talvez pergunte você. É que neste horário almas penadas debatem assuntos curiosos. Do momento em que entro, até o momento que saio, o debate ocorre sem perder o ritmo ou a inventividade. "Espanhol, espanhol, olha só rapaz, machquei o dedo do pé!" "Ah, isso num é nada! E eu que torci pé todo!" Um velho de cabelo cheio de gomalina observa: "Fala baixo espanhol, isso aqui é um ambiente de família, não é esses bordel que tu tá acostumado a frequentar!" As almas penadas se riem loucamente. A conversa volta a fluir. Quem fala é um homem de cabelo cinza, óculos redondos e antiquados. Usa um chinelo ryder e uma bermuda quadriculada. "Pé torcido? Isso não é nada! E eu que rompi o menilisco!" Grita o espanhol. "Tu rompeu o marisco?! Ôôrrrrrraaaa!!!" "Que marisco o quê, velha surda! Foi o menilisco!" "Ô Mêmê, deixa de ser ignorante! É meninsco!" "E tu é médico?" retruca o véio Mêmê. "Médico eu num sô, mas todo mundo sabe que o nome certo é meninsco" "Tá bom, tá bom" Interrompe um outro véio de cabelo ralo, calça larga, camiseta branca e alpargatas. "Ô Mêmê, tu acha que tá contando muito com esse teu marisco aí? Isso não é nada! E já quebrei a bacia rapaz! Fiquei um ano na cadeira de roda" Um outro véio se mete na conversa. Tem o cabelo anormalmente preto, usa colares de ouro e um relojão gigante. "Ô Arnesto, c vai me desculpar, mas essa tua cadeira de roda tá fraca." Ele levanta a camisa e exibe uma cicatriz que vai do peito até a cintura. "E eu que sofri um acidente de carro, e fiquei em coma um ano e meio e ainda por cima tive que tirar duas costelas!" As almas penadas começam a rir ainda mais. Um senhor, sentado numa mesa afastada, olhando para seu copo de whisky com guaraná fala baixo mas com a entonação do corvo do apocalipse. "Ô Alan Delon, coma é realmente uma coisa séria, mas isso aí é coisa que se ajeita. Agora veja a minha situação. Minha mulher me deixou, meus filhos não vem me visitar há mais de três anos, e ainda por cima atropelaram meu cachorro ontem" Um véio, com a camisa do corinthians, de braço cruzado, que até então estava concentrado no telejornal que exibia a notícia de um terrível acidente na rodovia Raposo tavares, bate no balcão e grita. "É o seguinte, agora a coisa é séria. Fiz uns exames ontem, e detectaram um câncer no meu pescoço." Ele estica o pescoço tentando fazer o número da girafa curiosa e continua "tem um caroço aqui ó, ces tão vendo?" O espanhol, de olhos pequenos nariz grande e um queixo que o faz parecer o sósia do Popeye não se contém mais e grita. "Aaaaaaaaaaa!!!!!" "Quê, quê isso Espanhol?! Tu tá surtando?!" Pergunta o Alan Delon, ao levantar as mãos. O espanhol, com olhos vidrados, aponta para a orelha direita e grita. "Tá vendo essa marca aqui?! Tá vendo?! Foi um tiro! Um tiro no ouvido! A bala entrou pelo direito e saiu pelo esquerdo! É!!! É isso aí, um tiro no ouvido!!! Agora vocês ficaram na lona!!!" Todos riem, uns engasgam com a bebida. Quando estou saindo e pensando que o espanhol conseguiu superar a todos na competição da desgraça. Eis que o véio do marisco, o Mêmê pergunta: "Mas peraí... se tu levou um tiro no ouvido de fora a fora, como é que tu tá ouvindo a gente?" E todos começam a gritar em coro. "Espanhol! Deixa de ser mentiroso!" "A é? A é? Se eu sou mentiroso, vocês são o quê?" Volto para casa com ataques de riso. Não sei em que ponto as coisas horríveis se tornam engraçadas. Em que ponto o trágico se torna cômico, mas acho que isso é apenas uma questão de tempo. |
| Last Updated on Monday, 09 November 2009 17:50 |















Comments
Que bom que gostou!
Em breve publicarei outra que se chamará o Gás da Risada.
Tenho um projeto de publicar minhas crônicas esse ano.
O livro muito provavelmente será vendido pela Amazon.
Muito obrigado por ter lido meu texto.
Um grande abraço,
Y.N. Daniel.
Muito boa essa crônica!
Me diga, vc já colocou suas crônicas em livro? Onde eu posso comprá-lo?
Adoro suas crônicas... são muito divertidas!
Um abraço!
Keila
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